Vigìle: Agentic UX e a construção de confiança em um agente autônomo

Donos de pequenos comércios recebem dezenas de alertas falsos por dia e ignoram quase todos. Este concept case desenha um agente autônomo que assiste às câmeras 24/7, investiga cada evento e só aciona o humano quando faz sentido — explorando as cinco tensões centrais da relação humano–agente.

Papel
Product Designer
Tipo
Concept case
Plataforma
App mobile
Foco
Agentic UX

As cinco tensões que o case resolve

Autonomiavs. controle
Transparênciado raciocínio
Confiançacalibrada
Interrupçãoa qualquer hora
Errorecuperação

O problema

Sistemas de monitoramento tradicionais disparam uma notificação para cada movimento detectado. O resultado é previsível: o dono de um pequeno comércio recebe dezenas de alertas falsos por dia, para de olhar, e o sistema perde a única função que tinha. A dor central não é técnica — é o excesso de ruído e a falta de confiança para delegar.

A hipótese do projeto: um agente que investiga antes de interromper só funciona se a interface resolver as cinco tensões acima. Cada tela a seguir ataca uma delas.

Tela principal · transparência + confiança + interrupção

Raciocínio visível enquanto o agente age

Durante uma investigação, o agente expõe cada etapa do raciocínio em tempo real, declara o nível de confiança da avaliação atual e mantém um controle sempre-presente para o humano assumir.

9:41
Câmera 2 · Entrada — ao vivo23:14
pessoa · analisando
Investigando movimento
Detectei movimento na entrada
23:14:07
Comparei com rostos conhecidos
Sem correspondência entre os 6 cadastrados
Cruzei com o horário de funcionamento
Loja fechada · pedido Food aberto às 23:02
Avaliando padrão de comportamento…
Parado na porta há 40s, embalagem na mão
Avaliação atual78%

Provável entregador — ainda confirmando. Não vou te acordar por isso, a menos que mude.

Assumir
Hipótese de design

A transparência só reduz a ansiedade se vier antes da conclusão, não depois. A confiança aparece como número + consequência ("não vou te acordar por isso") — porcentagem sozinha não orienta decisão. E interromper não pode custar mais que confiar.

Tela 1 · autonomia vs. controle

Delegação como contrato, não como slider

O usuário escolhe o nível de autonomia em linguagem de consequência ("age e me informa"), define exceções invioláveis por tipo de evento e horário, e o agente devolve o combinado em uma frase de linguagem natural. Se a frase soar errada, a configuração está errada.

9:41

Nível de autonomia

Só me avisaDetecta e notifica. Toda decisão é sua.
Age e me informaInvestiga e resolve o rotineiro; você recebe um resumo do que foi feito.
Age sozinho em casos rotineirosSó registra no histórico. Aciona você apenas em risco real.

Limites — ele nunca decide sozinho

Pessoa não reconhecidaSempre me acionar
Entregas e fornecedoresAgir e informar
Animais e ventoResolver sozinho
Madrugada · 00h–06hModo rígido
"Durante a madrugada, vou investigar sozinho e só te acordar se houver pessoa não reconhecida. Durante o dia, resolvo o rotineiro e te mando um resumo à noite."
Salvar
Hipótese de design

Delegação não é um slider abstrato — é um contrato. Sem exceções explícitas ("ele nunca decide sozinho quando…"), o usuário não entrega o controle; sem a frase-resumo, ele não sabe o que assinou.

Tela 2 · interrupção e decisão crítica

Handoff: a decisão final é do humano

Quando o evento cruza um limite definido pelo usuário, o agente para e entrega: situação, evidência, recomendação com grau de certeza e as opções — nunca uma pergunta em aberto.

9:41
Preciso de você agora
Pessoa não reconhecida tentou abrir a porta dos fundos

Câmera 4 · Fundos · hoje, 02:37 — este é um limite que você definiu: eu nunca decido sozinho.

02:37:123 tentativas na maçaneta
Minha recomendação91% de certeza

Recomendo acionar a central de segurança. Rosto não cadastrado, madrugada, comportamento de arrombamento. Já liguei as luzes externas e estou gravando.

Ver como cheguei nisso
Acionar
Visualizar
Dispensar

Sem resposta em 2 min, sigo o combinado: aciono a central.

Hipótese de design

No handoff, o agente não pergunta "o que eu faço?" — apresenta situação, evidência e recomendação. A decisão continua do usuário, mas nunca a partir do zero, e o fallback combinado ("sem resposta em 2 min, aciono") evita que a hesitação humana vire vulnerabilidade.

Tela 3 · recuperação de erro

Quando o agente erra, ele admite — e aprende

O agente classificou o próprio dono como pessoa não reconhecida. O estado de recuperação mostra o que ele viu vs. o que deveria ter reconhecido, aceita a correção em um toque e explica o que muda a partir dela.

9:41
Eu errei nesta avaliação
Marquei você como pessoa não reconhecida

Hoje, 07:02 · Câmera 1 · Entrada — você chegou 1h antes do habitual e de boné.

Marcos (você)Cadastro em 2024

Quem estava na imagem?

Era eu
Era um estranho
O que muda com a sua correção

Atualizo seu cadastro facial com esta imagem e paro de tratar chegada antecipada como suspeita. Erros como este caíram de 9 para 2 por semana desde que vocês começaram a corrigir.

Hipótese de design

Confiança se reconstrói na falha, não no acerto. O agente admite o erro em primeira pessoa e explicita o que aprende com a correção — feedback sem consequência visível parece um buraco negro, e o usuário deixa de corrigir.

O insight

Não se desenha um agente. Desenha-se a relação de confiança entre a pessoa e o agente.

O que faz alguém delegar não é a inteligência do sistema — é entender o que ele está fazendo, poder interrompê-lo e vê-lo admitir o erro. As telas mais difíceis de um produto agêntico não são as do sucesso: são a da delegação (o que eu entrego?) e a do erro (posso confiar de novo?). É nelas que a relação sobrevive ou morre.

Takeaways

Delegação é um contrato com exceções

Ninguém entrega autonomia em abstrato — entrega dentro de limites que ele mesmo escreveu e pode reler em uma frase.

Confiança precisa de consequência, não só de número

"78%" não orienta. "78% — não vou te acordar por isso" sim. Toda sinalização de incerteza vem acoplada ao que o agente fará com ela.

O erro é a tela mais importante do produto

Admitir em primeira pessoa, corrigir em um toque e mostrar o que mudou — é aí que a relação de delegação sobrevive ou morre.

IA acelera, o designer decide

As variações de fluxo e os estados de falha foram explorados com IA; o julgamento sobre quais tensões importavam, e o que era aceitável entregar a um agente, não.

Nota. Concept case autoral, 2026. Produto fictício, criado para explorar padrões de agentic UX em um domínio de alto risco (segurança). As telas são protótipos de alta fidelidade; as métricas exibidas nelas são ilustrativas do comportamento do produto, não resultados medidos.

Referências

As cinco tensões e as hipóteses de design deste case se apoiam em pesquisa estabelecida de interação humano-IA e confiança em automação — não em intuição isolada:

  1. Autonomia · ErroAmershi, S. et al. (2019). Guidelines for Human-AI Interaction. Proceedings of the 2019 CHI Conference — 18 diretrizes validadas com 49 praticantes de design em 20 produtos de IA. Base das telas de delegação e de recuperação de erro. microsoft.com/haxtoolkit
  2. ConfiançaLee, J. D. & See, K. A. (2004). Trust in Automation: Designing for Appropriate Reliance. Human Factors, 46(1), 50–80. Referência central sobre confiança calibrada: confiança em excesso leva a mau uso, confiança de menos leva ao abandono do sistema. Fundamenta a Tela principal (78% + consequência). doi.org/10.1518/hfes.46.1.50_30392
  3. TransparênciaGoogle PAIR (People + AI Research). People + AI Guidebook. Diretrizes sobre explicabilidade e definição de expectativas antes e durante o uso de sistemas de IA. pair.withgoogle.com/guidebook
  4. InterrupçãoHoff, K. A. & Bashir, M. (2015). Trust in Automation: Integrating Empirical Evidence on Factors That Influence Trust. Human Factors, 57(3), 407–434. Sobre custo de interrupção e o equilíbrio entre autonomia do sistema e controle humano no momento certo.
  5. ContextoNielsen Norman Group. AI for UX: Getting Started e artigos correlatos sobre agentic AI. Panorama aplicado de UX para sistemas de IA que agem, não só respondem. nngroup.com

As telas e o produto são fictícios; a literatura citada é real e pode ser conferida nos links acima.